Marcos Leomil*
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"O que você acha do gramado", perguntou o repórter ao saudoso João Saldanha (foto), então técnico da seleção brasileira, antes de uma partida no Maracanã em 1969. A resposta foi curta e grossa: "Eu ainda não provei, mas fique à vontade".
A lembrança deste episódio engraçado vem a propósito do estado lastimável do gramado da Vila Belmiro, até pouco tempo considerado o melhor do país. O tapete verde já era. O que se viu na partida contra o Atlético Mineiro foi de doer.
Olhe a condição do gramado da
pequena área da Vila Belmiro
Assisti no programa Baixada Esporte, apresentado pelo radialista Edson Calegares (foto), que, pasmem, o Santos aluga o gramado de Urbano Caldeira para terceiros, informação divulgada no site do clube, inclusive com o número de telefone para os interessados. Para achar é só clicar no banner abaixo, exposto no site oficial.

É de chocar até os mais contidos alvinegros. Terá sido um erro do responsável pelo site? Boicote de um dissidente da diretoria?
Até agora não houve nenhum desmentido do clube e também interesse dos jornais em esclarecer o assunto.
Imagine, pois, um jogo entre casados e solteiros no templo do maior time de todos os tempos. Ou um confronto entre empresários amigos do rei. Quem sabe uma peleja da turma de marketing. Convenhamos, é a inversão da ordem das coisas.
Enquanto isso, os atletas profissionais, alguns deles pagos a peso de ouro, são obrigados a jogar num piso com buracos, areia e falta de grama nas áreas. É evidente que um time veloz e de passes de primeira como o Santos tem sua atuação prejudicada, como já disse Dorival Jr (foto).
Aliás, ele não escondeu sua irritação com as condições do gramado da Vila e também dos três campos do Centro de Treinamento. O técnico ratifica mais uma vez sua independência. Elogia quando deve elogiar e critica quando isso é necessário.
Já demonstrara sua insatisfação por ocasião da ridícula mudança para o Pacaembu de um dos jogos da final do Paulista contra o Santo André, que quase custou o título.
Vejo que a diretoria está pisando sim em campo minado, com o perdão da analogia.
Tirante os aduladores de plantão, poucos acreditavam, inclusive eu, que Neymar (foto) recusasse a proposta do Chelsea, decidindo ficar no Santos. Ainda mais depois da saída de André, Robinho e Wesley.
Embora não faça parte do grupo reduzido de jornalistas que endeusam a diretoria, com loas exageradas e omissão dos equívocos, tenho de reconhecer que ela trabalhou ativamente e com competência para segurar o jogador.
Foi, sem dúvida, uma decisão que faz história no futebol brasileiro, sempre movido a paixão, florescendo talvez o início de mudança de comportamento na relação profissional entre os clubes e os atletas deste país.
Essa façanha ninguém em sã consciência pode negar. O mérito do presidente Luís Álvaro Ribeiro deve mesmo ser enaltecido. É simples: a César o que é de César.
A ponderação de Pelé (foto), em telefonema ao pai do atacante, teria sido decisiva, além é claro dos R$ 500 mil mensais, para a permanência de Neymar. O curioso é que há alguns anos, Pelé defendeu a saída de Robinho para o Real Madri. Agora, seguiu em direção contrária.
Desconheço os pormenores do contrato, válido até 2015, mas há informações que Neymar receberá R$ 3,4 milhões por ano, entre salário e direito de imagem.
Sem querer ser chato, mas sendo, quem pagará essa fortuna ao atleta? Será o Santos ou o grupo de empresários, desconhecido até hoje (existe mesmo?), responsável pelo pagamento mensal de R$ 1 milhão a Robinho?
Segundo Wagner Ribeiro, empresário do atacante, a diretoria do Chelsea disse que o jogador "era o único louco que rejeitou a proposta de um clube top do mundo". Alguém já afirmou, não lembro quem, que às vezes é necessário parecer louco para obter sucesso na vida.
O cavalo passou encilhado e Neymar foi demovido a não montá-lo. Mas ele é um craque com futuro promissor e não lhe faltará outra oportunidade para jogar na Europa. Acima de tudo, claro, está sua felicidade.
Wesley (foto) ganha R$ 50 mil mensais, mas tem proposta para receber R$ 222 mil de salário por um contrato de cinco anos no clube alemão Werder Bremen. Ou seja, algo em torno de R$ 10 milhões.
Neymar percebe cerca de R$ 120 mil. O Chelsea, da Inglaterra, quer porque quer o astro nacional e oferece R$ 70 milhões pelo atacante que arrebentou em sua estreia na seleção brasileira.
Wesley e Neymar terão muito mais do que ganham no Santos, fora a dinheirama de luvas, mansão, carro último tipo e outras mordomias.
Isso sem falar no Paulo Henrique Ganso (foto), objeto de desejo de dez entre dez clubes europeus, principalmente depois da atuação impecável contra os Estados Unidos.
Não duvido das boas intenções da diretoria do Santos em tentar manter os craques. Admiro até sua criatividade e a coragem de divulgá-la.
Ao acenar com um projeto de valorização do atleta, que inclui gatilhos salariais e promoções por metas alcançadas, como conquista de títulos, convocação para as seleções olímpica ou principal, corre o risco de pregar no deserto. Ou enxugar gelo, como diziam os antigos.
Duvido, amigos, que ideias vagas vão comover os jogadores, cuja aspiração é jogar na Europa e fazer o chamado pé de meia. Elas também não condizem com a realidade do futebol. A dificuldade do sonhador é prometer o que não pode cumprir.
O maior perigo para o atleta é abrir mão do certo pelo incerto. Mesmo porque a carreira é curta e as oportunidades não devem ser desperdiçadas. Sabemos que pelo menos 70% dos jogadores profissionais acabam em dificuldades financeiras e até na miséria.

Neymar vai embora?
Claro que uma diretoria que conquista dois títulos, um deles inédito para o clube, merece rasgados elogios. A contratação de Dorival Júnior, Arouca e Marquinhos, por exemplo, é digna de menção. É igualmente conhecida a inteligência, simpatia e afabilidade do presidente Luís Antonio de Oliveira Ribeiro.
Sonhos e realidade quase sempre, infelizmente, são antagônicos. Voltemos, pois, ao chato mundo real.
Até porque ninguém é insubstituível. Os cemitérios estão cheios deles.
Quando um jogador genial erra, todos os tolos se levantam contra ele. Ao atleta, não há outra forma senão de se resignar contra este lugar-comum no futebol. De herói é transformado em vilão em questão de segundos.
São impiedosamente jogados às feras. Vejam como ainda está sendo tratado ao extremo a cavadinha de Neymar no primeiro jogo da final contra oVitória.

Levanta Neymar, estamos com você!
Leio e vejo na TV que se o Santos perder a Copa do Brasil hoje à noite na Bahia, o culpado será exclusivamente ele. Um insulto à trajetória do craque, também artilheiro da Copa do Brasil, e ao fato de ter apenas 18 anos.
Digo com todas as letras: também é uma clara e abjeta injustiça do tamanho das vaias que Neymar recebeu na Vila. Meus amigos, a irreverência faz parte do futebol e o Santos tem essa característica. Se o atacante batesse a penalidade com força contra o travessão teria o mesmo tratamento hostil?
Ou vamos esquecer que Neymar foi autor do primeiro tento e de passes que deixaram André e Marquinhos (foto) na cara do gol, além de ter sofrido o pênalti com uma jogada brilhante?
O que ninguém mencionou foi o mérito do goleiro, que permaneceu estático no meio do gol. Imaginem se o batedor tivesse colocado a bola em um dos cantos, hoje o vilão seria o arqueiro baiano.
Portanto, deixem o craque em paz com seus dribles geniais e gols com rara categoria. Aliás, os críticos devem aproveitar para aplaudi-lo após a conquista da Copa do Brasil, pois temo que a partida de hoje seja uma das últimas de Neymar no Santos.
Vídeo polêmico
Uma coisa é irreverência saudável nos gramados, para deleite dos amantes do bom futebol, outra é a falta de educação demonstrada por alguns jogadores do Santos no vídeo exibido à exaustão nas tevês. O Departamento de Futebol perdeu há muito tempo o comando do elenco.
A justíssima convocação de Neymar, Ganso, Robinho e André para a seleção brasileira veio em excelente hora, às vésperas do primeiro jogo da final da Copa do Brasil contra o Vitória.

Meninos da Vila na Seleção Brasileira
Se a decisão por si só já significa um estímulo para os astros entrarem em campo e repetir a performance nos triunfos contra o Atlético Mineiro e Grêmio na Vila, a chamada dos santistas por Mano Menezes representa, sem dúvida, uma injeção a mais de ânimo.
Desconfio que, por isso, o estado de espírito da equipe seja outro amanhã. O futebol apagado, insosso, sem vibração e lento não terá vez. Acho que os atletas vão se desdobrar com alma em cada jogada, em cada dividida.
Nem pode ser de outro modo, mesmo porque vêm jogando pedrinhas, alguns talvez enebriados pelas ofertas milionárias de clubes europeus. Ou quem sabe insatisfeitos com a direção de futebol (?). Estariam as estrelas colocando a carreira profissional em segundo plano? Como se vê, há versões para todos os gostos.
Especulações à parte, os torcedores aspiram uma atuação avassaladora do Santos e um placar dilatado para transformar a segunda partida na Bahia em mero amistoso, apenas para cumprir tabela. Para eles, o infortúnio de uma derrota ou simples empate é inimaginável.
Mas, por favor, Dorival Júnior nos poupe de Zezinho, Marcel, etc. Você e todos nós sabemos: quem inventa é inventor.
PS: Uma pergunta que não quer calar: será a penúltima partida de Robinho, Ganso e Neymar? Outra coisa: quem deve estar rindo à toa são os ucranianos com a convocação de André. Valorizado, o centroavante certamente vale alguns milhões a mais. Ou não?






