Allanda Gil*
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Parecia que o Santos ainda teria que esperar mais um tempo para bater o Grêmio no Olímpico. O Alvinegro Praiano começou perdendo a partida nesta quarta-feira (25), desperdiçou o pênalti da virada e ainda teve que ver seu camisa 10 sair de campo machucado (foto). Mesmo depois do tento convertido por Neymar, o primeiro do time de Vila Belmiro, em cobrança de penalidade máxima sem cavadinha nem paradinha, o jogo não parecia terminar com vitória santista. Isso porque Ganso saiu com dores no joelho, sentidas no lance que originou o primeiro pênalti e depois Alex Sandro foi expulso.
A partida ainda teve um certo ar de recomeço, de encaixe de novas peças. Rodriguinho jogou no lugar deixado por Wesley, Marcel começou de centro-avante, mas foi Zé Love que levou mais perigo ao gol gremista na etapa final. Alex Sandro jogava na lateral esquerda, mas expulso depois do segundo amarelo, fez Dorival fechar o setor com a entrada de Danilo para a saída de Marquinhos. Isso já aos 36 do segundo tempo.
Com Zezinho no lugar de Ganso, com Danilo e Zé Eduardo, mas com um a menos, o Peixe fez o que parecia impossível. Virou para cima do Grêmio nos acréscimos, em um jogo que se terminasse empatado já estava de bom tamanho devido às circunstâncias da partida na segunda etapa.
Mas, o Santos tinha Neymar (foto). Aos 48 minutos, o autor do primeiro gol santista, que havia perdido a segunda cobrança de pênalti, chutou para a defesa de Victor, seu companheiro de seleção brasileira, e na sobra Rodriguinho acertou no gol, colocando o Peixe no G4 com um jogo a menos. Vale lembrar que Santos e Inter só se enfrentam em outubro, o que pode levar o Peixe a diminuir a vantagem para os primeiros colocados.
Temos que lembrar também que Vicor não foi convocado à toa. O goleiro se esticou todo para a boa defesa do pênalti, cobrado no canto baixo por Neymar.
O Fluminense está voando alto no Brasileirão e abriu cinco pontos para o Corinthians, segundo colocado. Mas o Santos mostrou neste jogo contra o Tricolor Gaúcho que nada é impossível.
Neymar (foto) surpreendeu mais uma vez. Mas agora, no lugar de um drible desconcertante veio a grata notícia que a jóia da Vila fica. E tão importante quanto o sim de Neymar é a nova fase que pode estar surgindo no futebol brasileiro.
Um futebol que volta aos poucos a contar com seus craques, aqueles que desde muito cedo vão embora para, quase sempre, a Europa. É o caso de Robinho, que mesmo com passagem rápida, voltou ao clube formador e ganhou dois títulos. É o caso de Rafael Sóbis, agora bicampeão da Libertadores pelo Inter, de Keirrison, de Diogo (bom jogador revelado pela Portuguesa, hoje com 23 anos, que acaba de acertar com o Flamengo). E de tantos outros. Ainda que por empréstimo, eles voltam para dar maior qualidade aos times brasileiros e deixar os campeonatos ainda mais competitivos e interessantes.
O êxito do Santos sobre uma equipe européia, no que diz respeito as negociações de um jogador extremamente talentoso, foi emblemático. Mostra que é possível que um clube não precise fazer das vendas sua principal fonte de receita. Mostra que este jogador de qualidade pode trazer a renda para dentro do clube sem que o resultado final seja uma despedida, por vezes traumática no passado, mas já aceita pelos acostumados torcedores brasileiros.
Muitos já davam que Neymar (foto) estava com as malas prontas. Muitos já até o apoiavam. O que não é errado, visto que jogador de futebol tem carreira curta e é perfeitamente compreensível que queira fazer seu pé-de-meia enquanto pode. Mas Neymar e o Santos decidiram que o pé-de-meia de Neymar, por hora, será feito na Vila Belmiro. Para deleite dos apreciadores do futebol, o desfile de craques, a partir desta quinta-feira dia 19 de agosto de 2010, permanece em solo do próprio país do futebol.
Neymar pode até fazer as malas na semana que vem. Mas só se for para jogar pelo Peixe contra o Grêmio no Rio Grande do Sul.
Quem viu o jogo da seleção ontem e não torce pelo Peixe finalmente conseguiu sentir o que o santista sente com os meninos em campo. Conseguiu torcer com um sorriso nos lábios, com gosto e com orgulho de ser brasileiro. Sim, isso é o que os Meninos da Vila proporcionaram à sua própria torcida em 2010. Agora todo mundo entende.
Um Camisa 10 de inteligência e classe. Um elástico na entrada da área. Belos passes, bela construção de jogadas. Assim como no Peixe, Ganso mostrou que o Camisa 10, aquele clássico, tão saudoso, faz a diferença. Antes de comemorar uma boa jogada de Ganso é preciso colocar o queixo caído de volta no lugar. Só depois se vibra com sua genialidade. Como diz aquela velha musiquinha do santista Luiz Américo: "É o camisa dez da seleção, lá lá lá láaa".

Ganso foi puro futebol arte
Neymar é surpreendente sempre, até para quem não se surpreende mais com Neymar. Não achei que a seleção foi uma surpresa por já saber como joga o Santos. Surpreendente foi Neymar partir para cima como se já vestisse aquela camisa há tempos e marcar de cabeça o primeiro gol da era Mano Menezes na seleção. O atacante do Peixe não sente o peso da camisa ou da situação, como já comprovado este ano. Ele entra, joga bola, faz gol e dá show. A chuva de raios que caem no mesmo lugar, ali na Rua Princesa Isabel, não dá trégua.

Neymar foi o destaque
Robinho foi Robinho, como sempre. Agora não mais moleque, agora capitão. Um capitão de 26 anos para um time de jovens. Nada mais justo. Mandou na trave, atacou, voltou para marcar, buscou a bola. Robinho jogando com Neymar e Ganso fica quase imbatível.
Uma pena André entrar um pouco antes de ver seus companheiros substituídos.

Robnho jogou muito
Mas não só de santistas vive a seleção brasileira. Um time inteiro de dar gosto se apresentou nos Estados Unidos. Embalados pelo espírito de futebol-arte dos meninos da Vila, o Brasil jogou como há muito não se via a seleção jogar. André Santos foi muito bem, David Luiz foi uma belíssima surpresa, Pato voltou a fazer o que mais sabe, assim como Ramirez, Lucas, Vitor, enfim, o Brasil foi a cara do Brasil. Já não era sem tempo.
A Copa do Brasil deixou um legado imenso para o Santos e para o futebol. Não só pela taça que faltava chegar na Vila, mas por mostrar ao país e ao mundo que time que joga bonito ganha campeonatos sim. Que o encanto cabe em campeonatos de mata-mata. Que um ídolo já consagrado, bicampeão brasileiro e presente em duas Copas do Mundo pode sim levantar a taça para uma torcida sua. Fato raro ver um atacante consagrado de 26 anos e tão identificado com um clube levantar a taça de campeão com a camisa do time que o revelou. O título da Copa do Brasil não foi só um título. Devolveu também a alegria ao futebol brasileiro.
Neymar (foto) não pode mais cobrar com paradinha. Então cobrou com cavadinha. Mas nunca deixou de ser cobrador de pênaltis. O pênalti da vitória sobre o Vitória, aliás, não existiria se não fosse Neymar.
Só perde quem cobra.
Loco Abreu deu a cavadinha em plena Copa do Mundo, em jogo de quartas-de-final. Em seus pés estaria a classificação do Uruguai para a fase seguinte. Loco Abreu não titubeou. E marcou.
O fato que fez a diferença na primeira final da Copa do Brasil foi que o goleiro do Vitória sabia que, vindo de Neymar, o inimaginável era o óbvio. O menos normal nos pés do atacante santista seria uma cobrança forte, baixa e no canto. Acho que o goleiro de Gana não esperava a cavadinha de Loco Abreu nem nos seus sonhos mais malucos.
Baggio perdeu um pênalti na final da Copa do Mundo de 94.Trezeguet, na final de 2006. Asamoah Gyan perdeu no último minuto da prorrogação, o que daria a vitória a Gana e nesta quinta-feira (29) não estaríamos nem falando em Loco Abreu.
Neymar perdeu o pênalti que ele mesmo sofreu. E ainda abriu o placar na Vila ontem. Se convertesse, sairia como herói, gênio, corajoso, decisivo e tudo mais o que se falaria dele e da cavadinha.
Neymar jamais será comum ou burocrático. E é isso que faz dele um jogador tão especial.
Sobre a primeira decisão contra o Vitória, duas constatações. A primeira é que Dorival tem uma baita sorte. Tirou Ganso, que estava jogando demais e colocou Marquinhos. Ainda sob a ira da torcida, Marquinhos cobrou falta e fez o que o Santos cansou de perder contra a equipe baiana. Gol.

Marquinhos e o gol
A segunda é que o jogo foi 2 a 0. Mas poderia ter sido um placar que colocaria a partida de volta como mero cumprimento de tabela.
A tão esperada convocação de Neymar (foto) e Ganso aconteceu um mês e meio depois do esperado. Muito se falava nos Meninos da Vila na Copa do Mundo, mas a chance só veio com novo treinador depois do Mundial. E não para por aí.
Neymar e Ganso vão acompanhados de Robinho, um dos quatro jogadores chamados por Mano Menezes que estiveram na África do Sul, e de André, menos badalado que seus companheiros, mas tão merecedor quanto os demais. Uma convocação para lá de justa. O Santos foi o time que mais cedeu jogadores para a equipe brasileira nesta primeira lista de Mano Menezes. Quatro, os quatro que brilharam com belos e numerosos gols este ano.
A chamada para a seleção vem em momento precioso. Dará um gás extra, uma alegria a mais para o próximo jogo de quarta-feira (28) diante do Vitória. Se o Santos não vinha em um bom momento no Campeonato Brasileiro, salvo o resultado positivo contra o São Paulo, é esta vitória somada à convocação que pode fazer com que a equipe volte a apresentar o bom futebol e o bom humor que marcaram o time de Ganso, Neymar e companhia.
Time que, aliás, já demonstrou que pelo menos pode voltar a fazer bonito, depois dos belos toques de calcanhar, letra e afins dos meninos no último domingo (25) na Vila Belmiro.
Como é bom rever o Santos encher a seleção brasileira de arte. A história, finalmente, se repete.
A única lamentação é que André já foi vendido.







